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Tag Archives: poetas portugueses

 

Irreparável

 

à Mónica e ao Alexandre

 

 

porque não escrevi versos

quando meus filhos dormiam

no mesmo quarto

sonos que não se repetem?

olhava-os nas viagens

que suas mentes faziam

em sonhos separados

mas unidos pelo meu olhar.

mais valiosa,

porque não me preocupava com as suas respirações,

não tinha nada de prática a minha vigília

era pura e lúdica

só os olhava

e com tal amor

que me esqueci de escrever estes versos

em devido tempo

embora irreparável

– do que passou

não há registos –

faço fora de prazo esta declaração

de uma saudade grande

de um amor maior.

 

carlos peres feio, em podiamsermais

 

»»»*** Nota sobre a formatação: “Irreparável”, página 67 de podiamsermais, está, como todos os outros poemas do livro, alinhado à esquerda. 

 

 

auto-retrato-ii

 

 

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baloicarte

 

 

desalento-cpf-cn-p

 

cpf-2009

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RECEITA PARA UM NATAL

 

aldeiapresépio na aldeia


Primeiro, ficar parado
durante um momento, de pé
ou sentado, numa sala ou mesmo
noutra dependência do lar.
Depois preparar
os olhos, as mãos, a memória
e outros utensílios indispensáveis. A seguir
começar a reunir
coisas, por ordem bem do interior
do coração e do pensamento:
a ternura dos avós, uma mancheia;
rostos de primos distantes, uma pitada;
sons de sinos ao longe, quanto baste;
a recordação duma rua, uns bocadinhos
um velho livro de quadradinhos
duas angústias mais tardias, alguns restos de azevias,
a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes
e de uns já passados.
Quatro beijos de seres amados ou de parentes
um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados
e um pouco de azeite puro e fresco
igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.
Mexe-se bem, leva-se ao forno
e fica pronto e saboroso
– mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.


Nicolau Saião


 »»»» BOAS FESTAS – Natal em Cristo – são os votos de toda a família.

»»»» Especial abraço natalício para o meu Tenente – o Amigo de tempos únicos, e para sempre, Carlos Peres Feio

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1986-versos-de-cperesfeio-cnp-2008-custom

 

»»» em BB-BB.

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  tens o Outono sonhado

o melhor da tua vida
o Outono
agridoce

 

Carlos Peres Feio – em PSM

 

11

 

21

 

31

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PERCENTAGEM

 

quando estou no escuro

vejo melhor

as fracções de mim

consigo detectar

parte importante do passado

arrumado em gavetas

se uma toma a forma

de álbum fotográfico

outra a de objectos diversos

há ainda o fragmento

puro campo magnético

entre um ente querido

e um livro  de infância

para sempre

encastrado na mente

 

que dizer daquela fatia

mais ausente que presente

responsável pelos filmes  

que só correm na cabeça

feitos nos estúdios

do meu espaço mental

com filmagens exteriores

em todas as ruas e estradas

onde a mente se excede

e muito do décor interior

se passa em casas e hotéis

projectados para a felicidade

demolidos pela vida

 

mais um espaço é criado

pela vontade plena de viver

e esse não deixa ver o conteúdo

zonas há que  adivinho importantes

com rótulos indecifráveis

mas sinto o seu peso

no chamamento das palavras

 apagadas

 

estas as partes encontradas

− no meio delas

onde estou eu?

 

carlos peres feio − em PSM