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Tag Archives: feliz

 

 

    Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómoro impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?

 

Mário de Carvalho, em Um Deus passeando pela brisa da tarde. Caminho.

 

 

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No ar que respirávamos havia um sentimento parecido com o amor. Como se bruscamente o mar estivesse perto, havia um assombro e uma exaltação no sangue. Tudo, naqueles anos, era diferente, até o sabor do sonho (talvez eu nunca tenha sido inteiramente feliz, mas sabe-se que a desventura requer paraísos perdidos). Não há homem que não aspire à plenitude, quer dizer, à soma de experiências de que um homem é capaz; não há homem que não tema ser lesado nalguma parte desse património infinito. Mas a minha geração teve tudo, porque primeiro lhe foi proporcionada a glória e depois a derrota.

Jorge Luís Borges, em O Aleph, tradução de Flávio José Cardoso, Planeta-DeAgostini

 

 

Mágico, construtor omnipotente de universos, deus dos deuses, único ser pensante, criador da natureza, da alegria e da dor, da bondade e do ódio. E quando a noite se fechava e o silêncio cobria a montanha com o vento frio deslizando sobre as lajes, ele recolhia-se ao quarto, enfiava-se na cama e deixava que o sono o arrastasse irresistível até ao sonho do sonho da sua vida. Nesses momentos ele era feliz, imensamente feliz, porque vivia então, e só então, liberto de todas as preocupações e dúvidas, com a certeza absoluta da realidade dessa experiência onírica, certeza essa que lhe fugia quando acordava. O sonho era para ele a verdade, e a verdade não seria um sonho?

Fausto Lopo de Carvalho, em No Silêncio da Casa à Tarde

 

 

– Amar uma flor de que só há um exemplar em milhões e milhões de estrelas basta para uma pessoa se sentir feliz quando olha para o céu. Porque pensa: “Ali está ela, algures lá no alto…”

Antoine de Saint-Exupéry, em O Principezinho, Editorial Aster