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Duas Igrejas – Dues Eigreijas (3)
estação da cp
Do Pocinho a Duas Igrejas é um longo estirão (105 quilómetros, segundo contas oficiais)
que o pobre comboio ofegante da linha do Sabor parecia estender ainda mais, nos seus solavancos
de velho cansado que teimava em resistir contra o tempo impiedoso.
Até Moncorvo – menos de uma dezena de quilómetros, sempre a subir – dava a sensação de
que lhe saíam das entranhas os últimos restos dos pulmões gastos, embrulhados em fumo negro
sufocante.
Mas o comboio avançava imponente apesar de tudo, trôpego e pesadão, sempre muito
pouca-terra, pouca-terra, atravessando as terras que se estendem
do vale do Douro ao planalto mirandês.
… aquele comboio era mesmo do antigamente, contavam por lá que foi recebido
à pedrada como se fosse obra do diabo…
… o comboio da Linha do Sabor era ainda um sinal de progresso, apesar da falta de carvão,
que obrigava ao recurso à lenha.
Durante muitos anos continuou a desempenhar cabalmente a sua missão, como se
o tempo não passasse. A verdade é que o tempo passou, o tempo passa sempre e depressa, …
… e o comboio era ainda o grande meio de transporte nos dias de feira, a vantagem era
que ali cabia sempre mais um, embora aquela viagem constituísse um verdadeiro
acto de heroísmo.
Até que um dia constou que o comboio ia acabar. Há muito que deixara de ser enfeitado com flores amarelas no primeiro de Maio, e outros relógios tinham aparecido entretanto. Anacrónico, ninguém se interessou pela sua renovação; deficitário, ninguém se preocupou em descobrir modo de inverter uma situação que há muito se adivinhava fatal; condenado pelo progresso, ele que foi um factor e um símboço de progresso, ninguém quis saber de nada. Deixaram-no morrer abandonado, como a cão rafeiro velho, é o que é.
Excertos de “Flores amarelas para o comboio” de Afonso Praça.
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