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Arquivos Mensais: Maio 2008
tenho dez minutos
tenho dez minutos
para dizer que te amo
o tempo de ainda ouvir um piano de antigamente
será minha fuga antes das dez
embalado por um som que só a ti me leva
quero que cada momento seja especial
sei que mais tarde quando me leres
vais saber que esta contagem decrescente te pertence
terás dez razões para te interrogares
porque escrevo em carta aberta
mas terás outras tantas
para te convenceres que
por estares longe mais te amo
quando tu estás por perto
não me concentro em ti
sou desviado pelo teu olhar único
tua anca teus cabelos
tuas dores e sorrisos
tuas rugas teus vestidos
tua tristeza
já não tenho dez minutos
mas dez anos para te amar
dizem as frias estatísticas.
.
Carlos Peres Feio – em PSM
.
coisas revoltas
algumas coisas revoltam-se ao serem tocadas
e poucos saberão porquê.
revelam na atitude invisível
a agonia em que têm existido
obrigadas ao espectáculo dos humanos
face ao auditório dos inertes,
das pedras semipreciosas, preciosas e simples pedras,
as que amo.
como as compreendo,
incrédulas com este fim de século,
a lembrarem,
a desejarem
voltar aos tempos
antes de a história ser feita,
em que a ordem universal,
a gravidade e o silêncio,
só eram vagamente acordados
pelo passar onírico
de um meteoro.
Carlos Peres Feio – em PSM
.
a tentativa humana de originalidade
falha
o esboço de um estilo próprio
está condenado
levantar o canto esquerdo da boca
ao rir
retorcer as duas mãos face ao incómodo
daquela maneira
é a memória de uma era antes de nós
são os avós a falar dentro do tempo
e nada mais a fazer
do que cumprir
Carlos Peres Feio – em PSM
Sinais do tempo, Sinais do corpo – em BIRD
DEJEUNER DU MATIN
Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petite cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a reposé la tasse
Sans me parler
Il a allumé
Une cigarette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s’est levé
Il a mis
Son chapeau sur sa tête
Il a mis son manteau de pluie
Parce qu’il pleuvait
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
Et moi j’ai pris
Ma tête dans ma main
Et j’ai pleuré.
Jacques Prévert
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Pintura de Carlos Peres Feio em BIRD.




